quinta-feira, 30 de maio de 2013

Estacionar é para poucos

por Antônio Athanazzio


Com o crescimento da frota de veículos em Salvador, estacionar é um problema para a população. Nos últimos quatro anos, a média foi de 30 mil novos veículos registrados no sistema do Detran   a cada ano. Isso representou, entre 2012 e 2013, um crescimento de 5% na frota. Segundo os indicadores mais recentes do Detran-BA, em fevereiro havia aproximadamente 580 mil veículos de passeio registrados na capital baiana. Considerando que a população soteropolitana já beira os 2,7 milhões, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já existe um carro registrado para cada  4,68 pessoas.

Região Pituba manobristas usam o passeio;
O aumento da relação habitante por veículo é reflexo do crescimento da economia e da renda da população, característica típica dos países emergentes como o Brasil. Com base na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE realizada em maio desse ano, a compra de carros chega a ser o principal motivo de endividamento da classe C. 
A baixa qualidade do transporte público impele as pessoas a comprarem e recorrerem aos automóveis, motivo este que contribui também para constantes congestionamentos.

As vagas dos estabelecimentos e instituições são insuficientes para suprir a demanda de automóveis. Salvador dispõe de um pouco mais de 7.508 vagas de estacionamento, incluindo a Zona Azul, os estabelecimentos particulares e os locais de posse da Superintendência de Trânsito e Tráfego de Salvador (Transalvador). Estima-se que a cidade possui aproximadamente uma vaga para cada 94 veículos.

Diante dessa impossibilidade, os motoristas não encontram outra solução se não estacionar nas calçadas, complicando o tráfego de pedestres. O bairro do Rio Vermelho é palco dessa problemática, principalmente aos fins de semana. Os motoristas procuram vagas na região por mais de 20 minutos e alguns acabam desistindo de frequentar o local. “Eu adoro isso aqui, mas penso duas vezes antes de vir para cá. É muita dor de cabeça para estacionar no Rio Vermelho”, desabafa Luana Martins, 29, que frequenta o bairro em alguns fins de semana.

Ocupar lugar do pedestre é comum na Av. Paulo VI

Algumas empresas de estacionamento vão além das vagas que possuem e oferecem as calçadas aos motoristas como continuidade dos seus serviços. De acordo com o relato de alguns motoristas, os manobristas da Master Park fazem uso desse tipo de recurso. O supervisor da empresa, Luís Eduardo de Oliveira, em depoimento ao jornal A Tarde, revela que o empreendimento não possui autorização da prefeitura para estacionar nas calçadas, mas aluga alguns espaços da região para acrescer o número de vagas disponíveis.

É preciso muita paciência, não só para encontrar uma vaga na cidade, como também negociar o espaço com os flanelinhas. Alguns deles chegam a cobrar até 10 reais para exercer o serviço. André Vinícius Andrade, 33 anos, servidor público, conta que, ao estacionar à noite próximo ao cinema Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, foi abordado por um flanelinha, que o intimou ao cobrar o valor do estacionamento. “Ele nem estava lá quando cheguei. De repente, ele estava me seguindo e me pressionando sobre o dinheiro que eu tinha que dar a ele”, diz.

Segundo dados do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), a promotora Joseane Suzart explica que o Ministério Público baiano possui a consciência de que os flanelinhas agem por sustento próprio e, portanto, não pretende erradicar a função. A promotora ainda alerta para que a fiscalização dessas pessoas seja feita pelo município.

Outro problema encontrado pelo Ministério é a irregularidade nas taxas de cobrança dos estacionamentos. De acordo com Joseane Suzart, o município deveria cumprir o decreto 19.693 de 2009, que estabelece valores fixos para essas taxas. Na Zona Azul, gerenciada pelo Sindicato de Guardadores de Carros de Salvador (Sindguarda), o motorista paga R$ 1,50 por duas horas de estacionamento, dois reais por seis horas, ou ainda três reais por doze horas.

Nos estacionamentos privados, os preços legalizados seriam dois reais para a primeira hora e R$ 1,50 para cada hora subsequente. Alguns estacionamentos cobram R$ 4,50 pela primeira hora e R$ 3,50 pela hora extra. Em eventos ou períodos de festa, os preços chegam a alcançar R$15,00 para estacionar o dia todo.

A insatisfação dos motoristas é perceptível. “Às vezes tenho que estacionar rapidinho para fazer algo, e lembro que terei que pagar mais de quatro reais só para ficar 15 minutos”, comenta Pedro Henrique Moura, 35, gerente de vendas. “Talvez seja melhor deixar o carro estacionado na rua nesse tipo de situação”.

A falta de planejamento urbano complica a vida dos soteropolitanos. A cidade chega a ter um carro para  aproximadamente  5 habitantes. Ao passo que 20 milhões de brasileiros pertencentes à classe C começam a melhorar o seu poder aquisitivo, mais veículos começam a circular nas ruas. Estacionar torna-se um privilégio para poucos tornando um grande problema na vida do soteropolitanos.

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